Particularmente, sou um fã de cruzeiros marítimos, considero uma das melhores opções de turismo, senão a mais completa, pois reúne a maioria das características que se busca em uma viagem de turismo em um único lugar:

  • Um hotel itinerante 5 estrelas com todas refeições inclusas (em alguns casos até bebidas inclusas), onde você vai esquecer o que é ter fome, pois há comida o tempo todo, enfim, esqueça o regime por aqui;
  • Inúmeras opções de entretenimento:
    • Para relaxar: piscinas, hidromassagens, spa, bares;
    • Para se exercitar: academia, pista de cooper, quadras de basquete, mini golf;
    • Para se aventurar: toboáguas, fliperamas, tirolesa, simulador de surf, parede de escalada, pista de patinação no gelo;
    • Para se divertir: discotecas, boates, música ao vivo, gincanas em grupo, shows fantásticos;
    • Para arriscar a sorte: Cassino, Bingo, sorteios.
  • Um Duty Free em alto mar que dispõe de várias lojas com preço reduzido para algumas comprinhas;
  • Área dedicada com monitores e recreação para crianças todas as idades, que contém de berçário à discoteca para os pais curtirem o navio despreocupados;
  • Alta tecnologia em alguns navios mais modernos: Simulador de paraquedismo; bartenders robôs; cabines com varanda virtual; carrinho de bate-bate e simuladores de corrida.

Mas para fazer tudo isso é necessário muito Gerenciamento de Projetos, pois tudo funciona e muito bem! Conseguimos então, observar as diversas áreas do conhecimento do PMBOK em ação durante um cruzeiro. 

  • Gerenciamento das Partes Interessadas  (Stakeholders): já imaginou quantas partes interessadas mapeamos aqui e quantas expectativas temos que levantar e atender?
    • Os passageiros – que neste caso que cito aqui, temos aproximadamente 6 mil hóspedes, cada um com necessidades, interesses e perfis distintos: adultos, pessoas de mais idade, crianças, adolescentes, solteiros, casados, divorciados, com necessidades específicas – e um último detalhe, de diversas partes do planeta com diversas línguas distintas;
    •  A tripulação – que é o time e executor do projeto, temos 2 mil, também composta de pessoas de todos os continentes até para atender.
  • Gerenciamento de Comunicações: dada a diversidade de nacionalidades e línguas de passageiros e tripulantes dentro do mesmo navio, como fazemos para que a comunicação nesta Torre de Babel flutuante funcione?
    • Informação divulgada por meio de mídia impressa e digital na língua nativa dos passageiros, que foram devidamente mapeados no momento da reserva (Gerenciamento de Stakeholders);
    • Uma tripulação multilíngue, vinda de todas as partes do mundo, vai lhe atender. No caso de nós brasileiros, sempre há tripulantes conterrâneos ou portugueses e também latinos onde um bom portunhol sempre funciona e em último caso, todos os tripulantes são bilíngues e 90% deles sabem inglês.
  • Gerenciamento de Riscos: Estamos falando de um navio em alto mar onde se passa a maior parte do tempo de longe da terra, onde qualquer evento não previsto não será possível dar uma encostadinha e sermos socorridos. Então, o Gerenciamento de Riscos é também, uma das disciplinas mais presentes nos navios de cruzeiro:
    • Risco de um naufrágio: apesar da possibilidade de um naufrágio ser remoto dada as lições aprendidas de um século de navios de cruzeiro (Titanic é a mais lembrada), sempre há a possibilidade de naufrágio até por erro humano (lembram do Costa Concordia?). Então, visando tratar esse risco, tenta-se diminuir e mitigar os impactos de sua ocorrência, melhorando continuamente o sistema de evacuação dos passageiros, com identificação de ponto de encontro para cada um, simulação e ensaio de situação de emergência no primeiro dia do cruzeiro, e sim, há barcos salva-vidas para todos os 8 mil cidadãos dessa cidade (não somente para os ricos como no Titanic);
    • Má qualidade de alimentos: O navio sempre inicia a viagem com todos os suprimentos necessários para o período que compreende o cruzeiro e não reabastece nos portos de parada, para garantir sua procedência e não correr este risco. Algumas companhias de cruzeiro quando vêm para o Brasil, por exemplo, trazem do seu país de origem, toda ou grande parte dos alimentos servidos durante a temporada que passará aqui no Brasil, também para garantir sua procedência;
    • Risco de faltar comida e bebida: Conforme comentei, é muita comida para se gerenciar e nada pode faltar, muito pelo contrário, tem que haver abundância. Então, o navio possui um estoque gigantesco, onde armazena os insumos para todos os dias da viagem previstos e com reservas extras;
    • Risco de algum passageiro passar mal: Este é um risco que também não dá para transferir ou ignorar, pois apesar de garantir a qualidade dos alimentos conforme comentei, o passageiro pode já ter embarcado com alguma pré-indisposição e passar mal no navio, ou simplesmente se lesionar ao cair, por exemplo, na pista de patinação no gelo. Então assume-se o risco, tendo um enfermaria/pronto socorro completo dentro do navio para dar os primeiros socorros a todos os tipos de enfermidades;
    • Alguma falha elétrica ou mecânica na cabine ou nas atrações e inúmeras atrações do navio. Como a probabilidade do risco é enorme, não há outra alternativa a não ser aceitar o risco e planejar bem a resposta. Para isso, dentre os tripulantes há um time 24 horas para atender a estas ocorrências para atender e resolver no menor tempo possível (falarei mais sobre isso em meu próximo artigo sobre Gerenciamento de Serviços nos navios de cruzeiro);
    • Enfim, riscos e mais riscos: temos aqui um cenário onde o Gestor de Riscos teve bastante trabalho para mapear todos os possíveis riscos envolvendo as partes interessadas e planejar e providenciar todas as respostas possíveis.
  • Gerenciamento do Tempo: Sim, o tempo também é uma das disciplinas mais utilizadas nos navios:
    • Diariamente, é produzido um cronograma das atividades do dia e deixado na cabine dos hóspedes na noite do dia anterior (na língua nativa do hospede de cada cabine – vide Gerenciamento de Comunicações). A duração de cada evento é programada com precisão de minutos;
    • Além do cronograma entregue, há também o cronograma de shows e excursões nos portos visitados, onde cada hóspede pode gerenciar seu próprio cronograma de shows e excursões por meio de reservas feitas na smart TV da sua cabine e estes tem que estar alinhados com a janela de tempo que o navio fica ancorado naquele porto.
  • Gerenciamento de Recursos Humanos: já mapeamos em Gerenciamento de Stakeholders que temos aqui 2 mil tripulantes aproximadamente e como disse, esse é o nosso time do projeto, temos que gerenciar sua mobilização de quando precisaremos deles no nosso cronograma (exemplo, instrutor de patinação no gelo durante o horário de patinação). Temos também os funcionários terceiros, artistas e músicos subcontratados (vide Gerenciamento de Aquisições). Por serem o nosso time, temos que os gerenciar e também desenvolve-los por meio de capacitação e um bom plano de carreira, necessário para manter a motivação de um time que pode ficar meses longe de suas casas;
  • Gerenciamento de Qualidade: a companhia de cruzeiros que conheço, preza muito pela qualidade dos serviços prestados e se orgulha de estar entre as melhores empresas de cruzeiro do mundo. Com isso, o padrão de Qualidade é estabelecido para as diversas áreas citadas e seu acompanhamento e controle também são feitos pelos supervisores e líderes de cada setor (por exemplo, o Maître, líder dos garçons, não sossega enquanto não vê os passageiros bem atendido);
  • Gerenciamento de Aquisições: Neste ponto de vista, temos muitos contratos de fornecedores de insumos, artistas, músicos, etc., que fornecem seus serviços no navio, então as aquisições e contratos devem ser feitas da melhor forma possível para não acontecer situações imprevistas (vide Gerenciamento de Riscos);
  • Gerenciamento de Custos: o custo de RH, de Fornecedores e de despesas em gerais precisam ser orçados para que tenhamos um budget e não gastemos mais do que o previsto, tendo assim, um retorno esperado deste projeto, afinal, é lazer para os hóspedes, mas para a companhia de cruzeiros, é um negócio e precisa dar lucro e dá, muito lucro, pois cada ano, ela constrói e lança mais um navio com tudo que citei e mais alguma novidade;
  • Gerenciamento de Integração: Estamos falando de uma cidade ambulante com diversos bairros e 8 mil cidadãos (população maior do que muitas cidades pequeninas no interior do Brasil). Para orquestrar todas as disciplinas e fazer a Integração, temos a figura equivalente ao Prefeito da Cidade, o Diretor de Cruzeiro. Exato, o Capitão pode ser a autoridade máxima no navio sendo responsável pela condução do mesmo, mas quem faz o papel de integrar, ter a visão do todo e ter a garantia que que tudo ocorrerá como o previsto, é o Diretor de Cruzeiro.

Poderíamos escrever um livro ou mais com todos os desdobramentos das disciplinas e áreas de conhecimento do PMBOK para a realidade dos cruzeiros marítimos, com certeza o Plano de Gerenciamento do Projeto do cruzeiro, é um livro enorme.

Espero que tenham gostado desta óptica do Gerenciamento de Projetos para os navios de cruzeiro e fico no aguardo dos comentários de elogios e/ou críticas.

Como comentei, lançarei em breve, um segundo artigo com a óptica do Gerenciamento de Serviços para os navios de cruzeiro, onde veremos diversas disciplinas do ITIL em ação nesta pequena cidade.

Obrigado e até a próxima!

Artigos anteriores:
Evento Caipira Ágil 2016 – Principais insights
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